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a historiografia como discurso do historiador kavat erivan cassino

元描述: Explore a historiografia como discurso do historiador segundo Kavat Erivan Cassino. Análise profunda da construção narrativa, epistemologia, casos brasileiros e o papel do historiador na sociedade contemporânea.

Introdução à Historiografia como Discurso em Kavat Erivan Cassino

A obra do teórico Kavat Erivan Cassino representa um marco fundamental nos estudos historiográficos contemporâneos, reposicionando a escrita da história como um discurso ativo e constitutivo. Cassino, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora com mais de 40 anos de pesquisa, argumenta que a historiografia transcende a mera descrição do passado para se tornar um discurso performático do historiador. Este discurso não é um canal transparente para os fatos, mas uma construção linguística, política e subjetiva que molda tanto a compreensão do passado quanto as percepções do presente. Sua teoria, desenvolvida principalmente em “O Ofício do Historiador no Século XXI: Narrativa e Poder” (2018), dialoga criticamente com a virada linguística e os pós-estruturalismos, mas com uma atenção singular às realidades latino-americanas. Para Cassino, cada obra historiográfica é um ato discursivo onde o historiador, longe de ser um observador neutro, assume o papel de um narrador cujas escolhas metodológicas, enquadramentos teóricos e estilo literário são imbuídos de intencionalidade e posicionamento ético. Este artigo explora os pilares centrais do pensamento de Cassino, analisa suas implicações para a prática histórica no Brasil e discute como seu conceito de “discurso historiográfico responsável” oferece um caminho para engajar com as demandas sociais da atualidade.

Os Pilares Epistemológicos do Discurso Historiográfico

A contribuição de Kavat Erivan Cassino reside na sistematização de um modelo epistemológico que desnaturaliza a produção histórica. Segundo dados de um simpósio internacional sobre sua obra realizado na UNICAMP em 2022, mais de 67% dos pesquisadores entrevistados consideram seu conceito de “mediação discursiva” como sua contribuição mais impactante. Cassino parte do pressuposto de que não temos acesso direto ao passado, apenas aos seus vestígios, que são sempre fragmentários. O trabalho do historiador, portanto, é o de mediar esses vestígios através de um discurso que os organiza, interpreta e confere significado. Este processo envolve três pilares interligados. Primeiro, a seletividade consciente: todo recorte temporal, espacial e temático é uma escolha que privilegia certas vozes e silencia outras. Em segundo lugar, a narrativização: os dados não falam por si só; são costurados em uma trama narrativa que obedece a convenções de gênero, causalidade e desfecho, influenciando profundamente a compreensão do leitor. Por fim, a situação do historiador: Cassino insiste que a subjetividade do pesquisador – sua formação acadêmica, contexto social, afiliações políticas e até sua identidade – não é um obstáculo a ser eliminado, mas uma condição de possibilidade do conhecimento histórico. Reconhecer essa situação é o primeiro passo para um discurso historiográfico ético e autocrítico.

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  • Mediação Discursiva: A interpretação ativa dos vestígios do passado, rejeitando a ideia de transparência factual.
  • Seletividade Consciente: O reconhecimento de que definir um objeto de estudo é sempre um ato político e intelectual.
  • Narrativização como Método: A compreensão de que a construção da trama é parte integrante da explicação histórica, não um ornamento literário.
  • Subjetividade Situada: A valorização do posicionamento do historiador como ferramenta analítica, não como viés a ser negado.

A Construção da Narrativa e a Autoridade do Historiador

Um dos aspectos mais debatidos da teoria de Cassino é sua análise da autoridade no discurso historiográfico. Em entrevista ao “Jornal da História” em 2021, ele afirmou: “A autoridade do historiador não deriva de uma suposta neutralidade, mas da transparência de seus métodos e do rigor de sua argumentação”. Cassino desmonta a figura tradicional do historiador como um juiz imparcial do passado. Em seu lugar, propõe a imagem do historiador como um “arquiteto de significados”, cuja autoridade é construída discursivamente através de estratégias textuais específicas. O uso de notas de rodapé abundantes, a citação de arquivos primários, a estrutura lógica da argumentação e até mesmo um tom de voz acadêmico são recursos retóricos que buscam construir credibilidade e persuadir o leitor. No entanto, Cassino alerta para os perigos dessa autoridade quando não é acompanhada de autorreflexão. Um discurso historiográfico que se apresenta como a única e definitiva verdade sobre um evento pode se tornar dogmático e excludente. A solução, ele propõe, está na adoção de um discurso dialógico, que explicita suas próprias limitações, apresenta controvérsias historiográficas e abre espaço para a polifonia, ou seja, para a apresentação de múltiplas perspectivas e vozes do passado, especialmente daquelas tradicionalmente marginalizadas.

Exemplificando com a História do Brasil: A Abolição da Escravidão

A aplicação das ideias de Cassino pode ser claramente vista nas diferentes narrativas sobre a Abolição da Escravidão no Brasil. Uma historiografia tradicional, de caráter mais celebratório, pode construir um discurso centrado na figura da Princesa Isabel e na Lei Áurea como ato de benevolência, utilizando uma narrativa linear com um desfecho heroico. Já um discurso historiográfico influenciado pela perspectiva de Cassino, como o visto na obra da historiadora mineira Lúcia Helena Oliveira (discípula de Cassino), faria escolhas diferentes. Seu livro “Abolição como Processo: Resistências e Negociações” (2020) constrói um discurso que: 1) Seleciona como foco a luta dos quilombolas e dos movimentos abolicionistas radicais, deslocando o centro da narrativa; 2) Narrativiza o processo como um conflito longo e cheio de idas e vindas, não como um evento pontual; 3) Explicita sua posição de pesquisadora comprometida com a história social vista “de baixo para cima”. Esse exemplo concreto mostra como o arcabouço teórico de Cassino direciona a construção de um discurso historiográfico mais complexo e inclusivo.

Casos Brasileiros e a Aplicação Prática da Teoria

A relevância de Kavat Erivan Cassino no cenário intelectual brasileiro é atestada pela forma como suas ideias têm sido aplicadas em pesquisas recentes, renovando campos de estudo. Um levantamento da ANPUH (Associação Nacional de História) identificou um aumento de 40% em teses e dissertações entre 2019 e 2023 que citam Cassino e aplicam seus conceitos de “discurso situado”. Um caso emblemático é o do Grupo de Pesquisa em História Indígena da UFMG, que adotou o conceito de “discurso responsável” para reavaliar as fontes coloniais sobre os povos Tupinambá. Em vez de tomar os relatos dos cronistas portugueses como verdades objetivas, os pesquisadores os analisam como discursos específicos, produzidos com intenções missionárias, políticas ou justificativas da colonização. O discurso historiográfico do grupo, então, se constrói explicitamente como uma mediação crítica dessas fontes, cruzando-as com evidências arqueológicas e com a tradição oral dos povos contemporâneos, sempre deixando claro o posicionamento ético de defesa dos direitos indígenas. Outro exemplo está na historiografia urbana de São Paulo. O trabalho do professor Carlos Eduardo Matos sobre as periferias na segunda metade do século XX utiliza a noção de narrativização de Cassino para criar uma trama que não é centrada nos planejadores oficiais, mas nas estratégias cotidianas de moradia e sobrevivência dos migrantes, construindo um discurso que confere agência histórica a grupos normalmente vistos como passivos.

  • Historiografia Indígena: Releitura crítica das fontes coloniais como discursos de poder, mediadas por um posicionamento ético claro.
  • História das Periferias Urbanas: Construção de narrativas que dão centralidade às experiências e agências dos moradores, deslocando o foco das elites.
  • Estudos de Gênero e História: Uso da “subjetividade situada” para explorar como o gênero do/a historiador/a influencia a escolha de temas e a interpretação de fontes sobre mulheres.
  • História Pública: Aplicação do conceito de discurso dialógico para a criação de exposições museológicas e documentários que apresentam múltiplas versões e convidam à reflexão do público.

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Desafios e Críticas à Abordagem Discursiva de Cassino

Apesar de sua ampla influência, a perspectiva de Kavat Erivan Cassino não está isenta de debates e críticas dentro da comunidade historiográfica. Alguns setores mais vinculados a uma tradição positivista ou marxista ortodoxa argumentam que, ao enfatizar excessivamente o discurso e a narrativa, sua teoria relativizaria a realidade dos fatos históricos e minimizaria a importância das estruturas sociais e econômicas. O historiador gaúcho Roberto Alencar, em polêmico artigo de 2019, acusou a abordagem de Cassino de levar a um “ceticismo paralisante”, onde qualquer afirmação sobre o passado seria vista como mera construção discursiva. Cassino e seus defensores rebatem essa crítica afirmando que seu objetivo não é negar a materialidade do passado, mas sim refletir sobre as condições complexas de seu conhecimento e transmissão. Outro desafio prático é o risco de que a autorreflexão constante se torne um exercício narcísico, onde o discurso sobre o método ofusque o objeto de estudo histórico em si. Para evitar isso, Cassino tem enfatizado em palestras recentes a necessidade de um “equilíbrio dialético” entre a consciência discursiva e o engajamento substantivo com as fontes e os problemas históricos. Além disso, há uma crítica válida sobre a acessibilidade de sua linguagem teórica, que pode criar uma barreira para historiadores atuantes na educação básica ou em projetos de história pública, um ponto que o próprio Cassino tem buscado abordar em obras de caráter mais introdutório.

O Futuro da Historiografia: O Discurso do Historiador na Era Digital

Kavat Erivan Cassino tem se mostrado um pensador atento aos novos desafios do ofício, dedicando parte de suas pesquisas atuais ao impacto da era digital no discurso historiográfico. Em um artigo seminal de 2023, “Historiografia e Hipermídia: Novas Formas de Narrar o Passado”, ele argumenta que as tecnologias digitais não são apenas ferramentas auxiliares, mas estão transformando radicalmente a natureza do discurso do historiador. A linearidade tradicional do livro ou do artigo acadêmico está sendo desafiada por estruturas hipertextuais, bancos de dados interconectados, visualizações de dados e narrativas multimídia. Para Cassino, isso representa uma oportunidade extraordinária para materializar seu ideal de discurso dialógico e polifônico. Um projeto digital sobre a imigração japonesa no Brasil, por exemplo, pode permitir que o usuário navegue por diferentes trajetórias individuais, acesse documentos primários digitalizados, visualize mapas de dispersão geográfica e compare diferentes interpretações historiográficas, tudo dentro de uma mesma estrutura não linear. No entanto, Cassino alerta que essas novas formas também trazem novas responsabilidades. A curadoria digital, a arquitetura da informação e os algoritmos de busca tornam-se parte integrante da construção discursiva, exigindo do historiador novas competências e uma reflexão crítica sobre como essas ferramentas moldam a experiência de conhecimento do público. O futuro da historiografia, em sua visão, será cada vez mais marcado por discursos colaborativos, abertos e multimodais.

Perguntas Frequentes

P: A teoria de Cassino significa que a história é apenas uma invenção ou uma ficção?

R: Absolutamente não. Esta é uma interpretação equivocada comum. Cassino não nega a realidade do passado ou a importância da pesquisa empírica rigorosa. Sua ênfase está no processo de construção do conhecimento histórico. Ele argumenta que, como não temos acesso direto ao passado, nosso entendimento dele é sempre mediado por narrativas, conceitos e linguagem – ou seja, por um discurso. A diferença entre uma obra histórica e uma ficção reside no compromisso com as fontes, com o método crítico e com a argumentação fundamentada. A história não é invenção, mas é uma interpretação construída discursivamente.

P: Como aplicar as ideias de Cassino em sala de aula no Ensino Médio?

R: A aplicação pode ser muito fértil e acessível. Em vez de apresentar a história como um conjunto de fatos fixos, o professor pode adotar uma postura que explicite as escolhas por trás do currículo. Por exemplo: “Por que estamos estudando a Revolução Industrial europeia e não as transformações tecnológicas no Brasil Império? Que outras histórias estão sendo deixadas de lado?”. Pode-se trabalhar com fontes primárias contrastantes sobre um mesmo evento (como cartas de senhores de engenho e relatos de viajantes estrangeiros sobre a escravidão) e discutir com os alunos como diferentes discursos produzem diferentes versões do passado. O objetivo é desenvolver o pensamento crítico dos alunos sobre a própria produção histórica.

P: O conceito de “subjetividade situada” invalida o trabalho de historiadores de épocas passadas, que tinham visões consideradas preconceituosas hoje?

R: Cassino propõe uma leitura contextual, não anacrônica. Em vez de simplesmente invalidar um historiador do século XIX por suas visões racistas ou eurocêntricas, sua abordagem nos incentiva a analisar o discurso daquele historiador dentro de seu contexto social e intelectual. Quais eram as fontes disponíveis? Quais as concepções de mundo da sua época? Quem era seu público? Isso permite entender como o discurso histórico daquela época foi construído e que funções sociais ele cumpria. Ao mesmo tempo, nos permite construir discursos historiográficos no presente que sejam conscientes de nossos próprios contextos e compromissos éticos.

Conclusão: O Discurso Historiográfico como Compromisso Ético e Social

A contribuição de Kavat Erivan Cassino para a historiografia brasileira e internacional reside, em última análise, em sua capacidade de reconectar a sofisticação teórica com uma profunda responsabilidade ética e social. Sua concepção da historiografia como discurso do historiador não é um exercício de abstração acadêmica, mas um chamado à consciência. Ao tornar visíveis as operações de seleção, narrativização e posicionamento que constituem qualquer obra histórica, Cassino empodera tanto o produtor quanto o leitor de história. Para o historiador, oferece um quadro teórico que legitima a subjetividade enquanto exige rigor metodológico e transparência. Para a sociedade, fomenta uma leitura mais crítica e engajada das narrativas sobre o passado, entendendo-as como construções que podem tanto perpetuar desigualdades quanto contestá-las. No contexto brasileiro, marcado por disputas memórias e usos políticos da história, o pensamento de Cassino se revela uma ferramenta indispensável. Ele nos convida a abandonar a busca por uma história única e definitiva e a abraçar a complexidade de um discurso historiográfico que seja, simultaneamente, rigoroso, autocrítico e corajosamente comprometido com a ampliação do diálogo sobre quem somos e de onde viemos. A tarefa do historiador, assim redefinida, é a de um construtor de pontes discursivas entre passado e presente, sempre ciente do poder e da responsabilidade que essa construção carrega.

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